sábado, 11 de agosto de 2012

Litoral paulista de fio a pavio - cicloviajando II

De Ilha Comprida a Peruíbe,  via Reserva da Jureia - Serra do Mar, Pedro de Toledo.

(Para ampliar as fotos basta clicar nelas)


Eta nóis!



Dia 23/07, dia do meu aniversário! De presente eu estava ganhando vários dias de pedal! Quer coisa melhor?

Naquela manhã eu precisava levantar cedo, pois marcara com o amigo Vinícius de nos encontrarmos no Bairro Chamado de Pé da Serra, onde começa  a Estrada do Despraiado.
Infelizmente ao olhar as mensagens no celular encontrei uma do Vini dizendo que, por motivos de doença em família não poderia estar presente ao pedal marcado para aquele dia.

Lamentei, pois queria conhecer pessoalmente esse antigo amigo de Fórum Pedal. Bom, já que eu estava sozinho nesse dia aproveitei para sair mais tarde e rearrumei os meus alforges que estavam meio desorganizados. Em seguida saí pedalando por Ilha Comprida, em direção a Av. Copacabana para tomar o café da manhã numa padaria. Estava morrendo de preguiça de acender fogareiro e preparar o café matinal.
Assim que saí pedalando percebi que o meu Ciclocomputador morrera. Que droga! Seria a bateria que eu trocara recentemente? Tentei reanimá-lo mas ele simplesmente enlouqueceu e começou a marcar os Km em alta velocidade! Pirou de vez!!!
Fui a uma padaria, tomei o café da manhã e saí em busca de uma bicicletaria onde eu pudesse então adquirir um outro ciclocomputador, ainda com fio e um modelo mais simples só para fazer a viagem.
Encontrei a bicicletaria e o sujeito só tinha um modelo bem simples, embora com 8 funções. Mandei instalar. O amigo ciclomecânico, não obstante tem muito boa vontade, não estava nada familiarizado com instalação e regulagem de ciclocomputadores o que me rendeu uma perda enorme de tempo.




O aparelho não saiu bem regulado e eu estava com pressa de pegar a estrada, pois tinha muitos Km de pedal pela frente, numa região totalmente inóspita e sem recursos.


Não sei se saí de lá mais triste do que aborrecido, mas estava preocupado. Contudo á medida que ia pedalando e me distraindo com as paisagens o incidente ia ficando cada vez mais fundo na área dos esquecimentos



Ciclovia saindo de Ilha Comprida no sentido de Iguape.





Braço de Mar que separa a Ilha Comprida de Iguape.










Cidade de Iguape, uma das cidades mais antigas do Litoral Sul Paulista.




Casarões antigos em Iguape-SP.




A Praça nova...




A ruína.




Andei pouco em Iguape, pois precisa pegar a estrada logo.


SP - 222 que liga Iguape a Miracatu.





A estrada era boa de pedalar, relevo tranquilo e logo os centros mais urbanos foram ficando para trás.







Ponte sobre o Rio Ribeira de Iguape.






Como já se aproximava a hora do almoço parei nesta frutaria e comprei um pacote com meia dúzia de Ponkãs enormes e doces como mel.






A beleza e a calma do estradão.












Opa! Cheguei a entrada da Trilha do Despraiado!




Bom, pelo que indica esse ciclocomputador até aqui já pedalei 61 Km. Hum... considerando que o Despraiado até Pedro de Toledo tem mais 45 Km acho que vou estar enrolado!...




Como não conhecia o relevo dessa "estrada" continuei pedalando alegremente, feliz como um passarinho que fugiu da gaiola!













Logo o relevo começou a mudar. Vieram a lama, o cascalho, as pedras soltas, subidões em cascalho solto, etc. A tarde ia caindo e o Antigão ia ficando preocupado. A preocupação era que eu me esquecera de fazer comunicação com a família alguns Km antes, onde talvez houvesse sinal de celular e naquele local não havia sinal de celular... nem um risquinho!!!




















Muitos cães latiam e/ou me perseguiam na estrada, durante a minha passagem. Mas houve um caso interessante: Eu passara por dois cães que saíram em minha perseguição e não desistiam. Então parei a bike, peguei um pacote de torradas que trazia na bagagem, chamei os danadinhos, dei-lhes torradas, as quais eles abocanharam famintos. Assim ficamos bons amigos.
Olhem a carinha de um deles enquanto eu me afastava continuando a minha trip.

Tchau amigo!!!







Quando cheguei para atravessar este belo riacho, por dentro da água, a noite estava caindo rapidamente.











Parei apenas o tempo necessário para me banhar um pouco e tirar o suor, dar um pouco de comida para os pernilongos e quando sai do outro lado já tive que acender o farol da bike.



De farol aceso vou pedalando estrada acima, em meio ao cascalho solto.



Olhava para ambos os lados e não via um local para montar um bom acampamento. Era só barranco cheio de pedras. Pior que eu estava com fome,. pois comera unicamente um pacote de Ponkãs até agora. Mesmo assim resolvi continuar pedalando até encontrar um lugar para acampar e preparar um jantar.






De repente, não mais do que de repente, ouço duas pessoas que vão conversando á minha frente Tratava-se de um jovem senhor e um rapaz. Depois de um  boa noite bem sonoro, e mais alguns comentários que me identificaram como cicloturista, perguntei-lhes sobre algum local para montar um acampamento. O Senhor respondeu:

- Tem um bar logo ali na frente.
- Um bar ? Perguntei incrédulo, pois era impossível que pudesse ter um bar no meio do nada.
- Sim, um bar, ele respondeu. É na minha casa. É só o Senhor continuar subindo que irá encontrá-lo, concluiu.

E não é que tinha mesmo!!!


É o Bar do Sr. Joaquim, conhecido em toda região como O Compadre.

Um senhor de mais de 70 anos, boa prosa, muuuuuuiiiito simpático, que foi logo me dando as boas vindas.


O Compadre.











Comentei com ele que a noite me pegara no meio da Reserva e se eu podia montar a minha barraca no quintal dele. Ele disse que eu iria dormir no sofá da sala dele, não precisava montar barraca. Infelizmente o sofá era pequeno, de apenas dois lugares e como eu insistia, concordou que eu estendesse meu colchonete sob o teto do bar e dormisse ali mesmo.
O filho dele - aquele senhor que me indicara o bar - correu a tirar um banco que havia por ali para me liberar o local de "minha cama".
Tudo acertado o Compadre me perguntou se eu já jantara. Disse-lhe que iria acender meu fogareiro e preparar o jantar. Ah, mas ele não deixou mesmo! Pediu que eu lhe entregasse os pertences e chamou a sua filha para preparar o meu jantar em seu próprio fogão!
Jantei como um leão faminto acompanhado de um refrigerante e fiquei batendo papo com o Compadre durante algumas horas seguintes. Já devia passar das 21 horas quando ele fechou o bar e fomos todos dormir.
Escuridão total. Não muito distante da minha cama, sobre uma caixa forrada com papelão dormiam dois cães enormes, com os quais eu fizera rápida amizade. Meus guardiães na mata escura, pensei.
Naquele momento, emocionado agradeci a Deus pela Sua providência e dormi uma noite super tranquila.
Acordei o dia já estava claro e fiquei admirando os cães rosnarem e esbravejarem com os frangos que insistiam em tentar roubar-lhes a ração de suas panelas.
Parecia que todos os pássaros do mundo estavam ali cantando para me cumprimentarem. Uns pássaros azuis lindos faziam verdadeira festa numa árvore próxima.
Ah, obrigado Papai do Céu!
Peguei a toalha, sabonete e fui para o rio de água cristalina fazer a minha higiene matinal.




























Quem disse que consegui seguir viagem sem antes tomar café fresquinho com o Compadre?

Obrigado Compadre e família! Que Deus possa abençoá-los ricamente em todos os momentos de suas vidas!

Despedi-me e saí pedalando feliz, mas preocupado por ainda não ter feito contato com minha família.


Peguei um subidão de dar medo! Mesmo empurrando a bike estava difícil vencê-lo, pois o cascalho solto fazia com que a roda dianteira escorregasse para o lado, tornando o subir um tormento. Sabia que seriam 5 Km de subida dura, pois o Compadre me alertara.





Essas flores exóticas estão por toda a parte, alegrando e dando um toque original á paisagem.




Você gosta de bananas? Aqui tem montanhas inteiras plantadas com bananeiras.






Olhe a estrada lá embaixo e ainda nem estou no meio da subida!!!



Logo três mulheres me alcançaram e fomos batendo papo subidão acima. Um senhora, sua filha e sua sobrinha que veio passar uns dias de férias. Saíram de casa ás 8 horas para chegar ao divisor ás 10, onde pegarão um ônibus para Pedro de Toledo. Duas horas de caminhada dura, subidão acima! Mulheres valentes. Para quem não sabe, o divisor é no alto do morro, onde há uma placa indicando que estamos na reserva florestal Jureia - Itatins.
A senhora e sua filha residem um pouco abaixo da casa do Compadre, onde passei a noite.

Chegamos ao topo! Ufa! As mulheres se assentaram num banco que havia no ponto do ônibus e eu sentei ao lado delas para descansar um pouco Tentei sinal de celular, mas nada! Nem um risquinho!
Elas me disseram que sinal de celular só a partir da Vila Batista, em Pedro de Toledo.
Assim despedi-me daquelas simpáticas e valentes criaturas e comecei a descer - isso mesmo descer! - em direção a Pedro de Toledo. Nem lembro, mas creio que ainda faltava uns 10 Km parra chegará Vila Batista


Na descida pude apreciar os riachos de águas límpidas e desde o momento que entrei naquelas paragens pude perceber a grande quantidade de Arapongas que habitam a serra. Com seu canto peculiar, a ave é conhecida em São Paulo como "Ferreiro", pois lembra um ferreiro malhando o ferro em uma bigorna.












Pouco antes de chegar á Vila Batista comecei a perceber um ruído estranho na roda dianteira da bike. Desci e examinei: havia jogo no eixo do cubo. Estranho, pois colocara um cubo novo, Shimano Alívio, exatamente para esta viagem! Mesmo assim continuei pedalando e logo cheguei á Vila. Sinal de celular... NADA!!!
Conversei com um dono de padaria e ele disse que vendera o celular pois não havia sinal de nenhuma operadora por ali. Só em Pedro de Toledo, uns 5 Km adiante.
E bicicletaria, havia alguma, perguntei a ele? Não, respondeu, só em Pedro de Toledo, afirmou.

Que zica, pensei, pois áquela altura já dava para ouvir as esferas se moendo dentro do cubo dianteiro da bike! Tentei até pedalar, mas, resignado,  resolvi que faria os 5 Km restantes até P. Toledo empurrando a bike.
Um Km adiante acenei para um ciclista que passava do outro lado da avenida pedalando e ao parar perguntei se havia bicicletaria por ali. Ele disse que não havia bicicletaria, mas tinha uma pessoa na Vila que mexia com bicicletas e me propôs chegar até lá.
Foi show ver a humildade do amigo ciclomecânco. Ele humildemente disse que nunca vira uma bicicleta igual a minha por ali, com aquele eixo de alavanca, mas que poderia tentar ver o que havia acontecido ao cubo.

Humilde mas muito inteligente e capaz.


As esferas estavam moídas, mas cone e bacia estavam intactas Trocou as esferas e cobrou apenas R$ 5,00 pelo serviço.
Saí dali pedalando feliz e pouco mais a frente o celular começou a apitar elouquecidamente! Eram tantos os sinais de SMS e avisos de ligações perdidas que até me assustaram!
Esposa, filhas, o Fábio, o Vini, todos estavam a minha procura!
Fiz contato com todos; eu estava vivo e pedalando!

O Vini tiha ido até Pedro de Toledo para me encontrar, mas diante da falta de comunicação estava voltando para São Vicente. Eu disse a ele que diante de tudo o que acontecera, daria uma parada em Peruíbe, onde ficaria numa pousada até o dia seguinte. Combinamos então de nos encontrarmos futuramente no Guarujá para pedalarmos juntos até Boçucanga, Município de São Sebastião, onde pretendia fazer uma parada.

Rumei então pedalando rápido para Peruíbe-SP.

 Trevo de Pedro de Toledo-SP




Rumando para Peruíbe-SP




Oba, falta pouco!




Trevo de Itariri-SP






Chegando em Peruíbe-SP




Praias de Peruíbe-SP








Agora eu precisava de um belo banho quente, uma refeição caprichada e um pouco de descanso para continuar o projeto. Fiquei no Hotel Chalé dos Coqueiros, pois já o conhecia e sabia ter um preço bem atrativo.





Assim, foram esses dois dias desde que saí de Ilha Comprida-SP. Creio que foram os dois dias mais difíceis de toda a viagem, mas valeu a pena pela aventura, pelas paisagens e pelas pessoas bacanas que conheci por onde passei

Mas, ... não acabou! Tem muita coisa ainda para rolar pela frente, é só aguardar a continuação dos relatos.

Só para dar água na boca:




Referências:

Se um dia pedalares pelo Despraiado não deixe de visitar o Bar do Compadre. Fica ao lado desta ponte:


Hotel Chalé dos Coqueiros: 

Abraços do...


4 comentários:

biciclenauta disse...

É sempre muito bom ler tuas histórias. Leitura cativante. Ficamos no aguardo da continuação.
Abçs
Marlon

Rômulo José disse...

Olá meu caro, fico fascinado pelas suas Odisseias... Fico imaginando os seus desafios e qual bom seria estar aí com vc... Voce me inspira. Abraços!

PEDALADAS. disse...

Fala Mestre,
Obrigado pelas palavras novamente.

Seus dois primeiros relatos da cicloviagem estão bem recheados de histórias de todos os tipos. Belas imagens como sempre e o relato que faz o leitor ir na carona o tempo todo.
Especificamente esse segundo dia fez um flashback em acontecimentos similares nas nossas viagens. Pedalar em uma estrada sem a menor sensação ou conhecimento que irá encontrar um ponto de apoio (bar, lanchonete ou algo parecido) logo na frente é de fazer a preocupação vir a tona o tempo todo. Ver a noite cair, não ver luz nos postes, estar com fome, não saber se tem morro e não saber quanto falta para chegar em algum lugar de apoio já foram vividas muitas vezes por nós. Deu para sentir novamente a sensação do momento. Nós não tivemos ainda a sorte de ter encontrado alguém tão generoso e solícito como o Sr. Comprade.
Esse segundo dia foi realmente cheio de emoções.
Parabéns.

Marcelo.

Gerson Moraes disse...

Conheço parte dessas estradas por meus passeios de moto, mas garanto que não vi nem 10% do que você viu de bike, o cicloturismo é muito mais intenso que o mototurismo. Parabéns pela riqueza dos relatos, me dá até vontade de trocar minhas ciclindradas pelas pedaladas!